Arquivo em Setembro 2020

S. João Gabriel Perboyre

João Gabriel nasceu em Puech, um lugarejo na paróquia de Montgesty. Primeiro dos oito filhos de Pedro e Maria Perboyre, cresceu numa família muito católica, proprietária de uma fazenda que lhes assegurava o sustento.  O pároco da sua paróquia gostava de interrogá-lo sobre o catecismo dizendo: “Vamos ao pequeno doutor!”. Na sua família, João Gabriel recebeu o exemplo do seu tio Jacques, padre da missão, homem de coragem no momento da Revolução. Com ele, João Gabriel aprendeu como viver por Jesus Cristo e servi-lo até a morte.

Em 1816, João Gabriel acompanha seu irmão menor ao Seminário de Montauban e lá permanecerá para continuar os estudos.
Em dezembro de 1818, João Gabriel entra na Congregação da Missão; é ordenado padre em setembro de 1825 na Capela da Casa Mãe das Filhas da Caridade, em Paris. Depoisde servir como professor de teologia no Seminário de Saint Flour, ele é chamado à Casa Mãe da Congregação da Missão, em Paris, para ser diretor do Seminário Interno.

A Epifania, a estrela do momento do seu nascimento, continuaria a mostrar-lhe horizontes muito distantes. Em março de 1835, ele se põe a caminho, sob a proteção de Deus, e chega a Macau, porto de acesso às missões na China, em 29 de agosto. Suas atividades apostólicas em Ho-Nan serão numerosas, apesar dos perigos e perseguições até ser traído e preso em setembro de 1839.


Após meses de sofrimento físico e moral, de longas e terríveis torturas, João Gabriel Perboyre dará seu último testemunho no dia 11 de setembro de 1840, pendurado numa cruz e estrangulado por uma corda.

Uma cruz luminosa apareceu no céu no momento da morte de João Gabriel, segundo muitos testemunhos. A Epifania chegou ao cume – realizando as palavras do profeta Daniel (12,3): “Os justos hão de brilhar como o esplendor do firmamento, e os que ensinam a justiça a muitos brilharão como estrelas por toda a eternidade.”
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FREDERICO OZANAM

Traços biográficos
Frederico Ozanam nasceu em Milão, no dia 23 de Abril de 1813. Foi o quinto filho de um conjunto de catorze, dos quais só quatro sobreviveram. O pai, médico dedicado à ciência, à arte e ao trabalho, era homem de fé e com grande amor aos pobres. A mãe era uma cristã activa que se dedicava a cuidar dos doentes. A família fixou-se em Lyon e Frederico foi aluno do colégio real, onde a sua fé sofreu fortes abalos. Aos quinze anos passou por uma crise de fé, vencida graças à ajuda e amizade do P. Noirot que o aconselhou a equilibrar as reflexões filosóficas com o estudo de temas bíblicos e com a acção apostólica. Aos 18 anos, ultrapassada a crise de fé, deixa Lyon e vai para Paris. Cursa Direito na Sorbonne e segue também alguns cursos no Colégio de França. A par do Direito, área em que obteria o grau de Doutor em 1836, também se interessa pela Literatura, ramo em que se licenciou no ano de 1835 e lhe permitiu o contacto com grandes figuras da época, Chateaubriand, Montalembert, Lamartine e outros autores de renome, que defenderam o cristianismo da crítica racionalista. Regressado a Lyon, aí faz uma experiência profissional como jurista, ajudando a mãe, já viúva, e o irmão mais novo. Prossegue a sua actividade apostólica como presidente da Conferência Vicentina local. Mas desgostoso com a justiça, que considera «rodeada de imundícies», volta para Paris, retoma os estudos de literatura e elabora uma tese sobre Dante e a filosofia católica do século XIII, com a qual obtém o grau de Doutor em Letras. Aceita a suplência da Cadeira de Literatura Estrangeira, da qual viria a ser titular. Desfeitas as dúvidas sobre a sua vocação à vida religiosa, com a ajuda do seu grande amigo o P. Noirot, contraiu matrimónio em 1841, tendo-lhe Deus concedido o dom de uma filha de nome Maria. Académico brilhante e pai de família dedicado, ainda tinha tempo para receber diariamente, em casa, alguns estudantes, para fazer conferências no círculo católico, para visitar os pobres e, claro, para se dedicar às Conferências de S. Vicente de Paulo, como membro do Conselho Geral a partir de 1840 e Vice-Presidente, a partir de 1844. A doença grave que o afectou durante vários anos obrigou-o a abandonar a docência, um ano antes da morte prematura, que o atingiu em Marselha, no dia 8 de Setembro de 1853, em atitude de total abandono nas mãos de Deus. O seu túmulo encontra-se na cripta da igreja dos Carmelitas, em Paris.
 
Académico brilhante e intelectual cristão.
Os estudos de Paris forjaram nele um homem corajoso e entusiasta que completa a formação académica com outras investigações no âmbito dos seus múltiplos interesses intelectuais, a que junta uma vasta rede de contactos pessoais e de iniciativas de apostolado e de caridade. Levado pelo zelo apostólico, pediu ao Arcebispo de Paris que abrisse a cátedra de Notre Dame a oradores competentes que pudessem ser «o contra-peso das glórias do erro», pedido a que este acedeu, com agrado, encarregando dessa missão o célebre pregador Lacordaire. Desde cedo adquire notável capacidade de discernimento dos espíritos e das correntes de pensamento. Trabalha sempre guiado pelo nobre ideal de «servir a verdade», na Igreja, tentando dar corpo a um grandioso projecto de História das Religiões, no qual trabalhou com determinação, durante toda a sua curta vida. As suas Obras Completas, editadas em oito volumes, foram, posteriormente, acrescidas de mais três e tiveram várias reedições no século XIX. Desenvolvem-se à volta de duas ideias-chave: o trabalho apologético e o testemunho pessoal. Nelas se incluem mais de mil e quinhentas cartas. Como «missionário da fé junto da ciência e da sociedade», inaugura na Sorbonne a tradição dos universitários católicos, posição rara e incómoda ao tempo; afirma-se como precursor do catolicismo social, mais tarde consagrado por Leão XIII na encíclica Rerum Novarum; garante lugar na sociedade aos intelectuais cristãos. Perante a polémica entre a ciência e a fé, toma uma atitude conciliadora para não comprometer «a santidade da causa com a violência dos meios». Para ele o mais importante era libertar as verdades fundamentais do erro, que as envolva, e dar visibilidade à pedra angular do mundo novo no qual o homem possa saciar «a sede de infinito» que o acicata, pondo em evidência a acção benéfica da Igreja e o papel civilizacional do cristianismo. Homem franzino, modesto e sábio, sincero e desinteressado, capaz de se inflamar perante um auditório é igualmente bondoso e sabe desculpar o erro. Firme na fé que alimenta na oração, tem consciência de que o testemunho evangélico comporta mais poder de convicção do que qualquer tipo de argumentação apologética. Por isso, ao brilho e à argúcia da sua argumentação de académico, junta a prática da sua acção benfazeja para com os pobres, alicerçada nas palavras de Jesus Cristo que se esforça por cumprir com rigor: «o que fizerdes aos outros é a Mim que o fazeis» (Mt 25,40). Com razão, o seu exemplo de vida é apontado ainda hoje, aos jovens e intelectuais cristãos, como forte interpelação à coragem para testemunhar a fé pela palavra e pelo compromisso efectivo com os mais carenciados da nossa sociedade.
 
Apóstolo da caridade
Frederico Ozanam aprendeu a amar os pobres no ambiente familiar e tinha por eles um amor entranhado. Considerava mesmo ser essa a sua vocação, enraizada no amor de Deus que nos amou primeiro para que nós também nos amemos uns aos outros (1Jo 4,11). Ia até ao ponto de afirmar que não basta falar da caridade e da missão da Igreja, porque é preciso traduzir o serviço dos pobres em compromisso efectivo. E foi este amor entranhado aos necessitados, que, um dia, ao ser espicaçado pelo desafio provocador de um colega de estudos – «vós, que vos orgulhais de ser católicos, que fazeis?» – levou Frederico Ozanam e os seus companheiros a fundarem a Conferência da Caridade, mais tarde chamada Conferência de S. Vicente de Paulo, por influência da Irmã Rosália Rendu, vicentina, que, no «quartier Mouffetard», onde era bem conhecida de todos os pobres, a quem tratava com especial estima e carinho, os ensinou a contactar com eles e a amá-los, a exemplo de S. Vicente de Paulo. Ozanam tinha agora ao seu dispor um instrumento e uma metodologia para concretizar o sonho grandioso de «envolver o mundo numa rede de caridade». A partir daí, dedicou-se de alma e coração a promover as Conferências que, em 1835, tiveram o primeiro Regulamento aprovado; dez anos depois, já a Santa Sé confirmava o Regulamento Mundial. Ozanam era incansável na dedicação aos pobres. Estuda a situação em que vivem e compromete-se com eles para os ajudar a crescer em humanidade. O amor aos pobres tornou-se para ele numa fonte de conhecimento (1Jo 4,12-13). E o conhecimento adquirido pelo amor foi a chave da sua vida espiritual. Pela caridade combatia as injustiças, indo mesmo até ao compromisso político, convicto de que nenhuma sociedade pode aceitar a miséria como uma fatalidade sem comprometer a sua honorabilidade. Querendo amar a Deus e não sabendo fazê-lo de outro modo, amava-O nos pobres, a quem considerava como senhores, usando a expressão: «tu és o meu senhor». Deixou-nos, verdadeiramente, um testemunho de vida santa.
(nota pastoral da CEP, nos 150 das Conferências Vicentinas)

*Natividade de Nossa Senhora*

A 8 de Setembro a Igreja celebra a natividade de Maria. Nossa Senhora tem a sua genealogia – que é proclamada no Evangelho desta festa (Mt1,1-16.18-23) – tem a sua história como Mãe do Salvador e tem a sua história como nossa Mãe. Hoje faz anos: procuremos dar-lhe um presente que alegre o seu coração e que nos faça felizes a nós próprios.